Espanha

A Espanha foi habitada pelos iberos, contados entre os primeiros povos da Europa. Também fenícios e cartagineses estabeleceram postos comerciais e fundaram algumas cidades no Sul há mais de mil anos antes de Cristo. Dominada pelos Romanos, a Ibéria fazia parte de seu vasto império. Mais tarde, fundou-se o reino dos visigodos que tiveram muita influência na língua, na religião e nos costumes.

Os visigodos, que antes eram arianos, converteram-se ao catolicismo. Toledo era sua capital. Pelo ano de 711 os bérberes do norte da África, invadiram pelo Estreito de Gibraltar, a península ibérica e se fixaram no Sul, em Granada e Córdoba. Foram chamados mouros. Eram muçulmanos. Deixaram marcas de sua cultura árabe. Mas, em certas épocas, perseguiram os católicos, principalmente no califado de Córdoba, onde fizeram muitos Mártires, entre os anos de 850 a 859. Foram definitivamente expulsos em 1492 pelos reis católicos Fernando e Isabel de Castela.

Na península ibérica formaram-se diversos reinos: Astúrias, Leão, Castela e Aragão. Após a descoberta da América, o reino da Espanha unificada tornou-se forte e poderoso, principalmente sobre os reis Felipe II e Felipe III e o Imperador Carlos V. Por diversas causas, que não cabe aqui trazer, aos poucos foi se esvaziando e entrou em declínio. No tempo do Padre Manuel era rei Afonso XIII. Era dividida em muitas províncias.

A nós interessa o cenário geográfico em que nasceu e viveu boa parte de sua vida o Servo de Deus Padre Manuel. A região oeste-setentrional da Espanha, ao norte de Portugal, chama-se Galícia (Galiza), cuja capital é Santiago de Compostela e divide-se em duas províncias: Coruña e Pontevedra. Esta é a do Padre Manuel. A comarca é Puentereas, o município é Setado, a povoação é São José de Ribarteme.  A parte sul da Galícia já pertenceu a Portugal, sofreu influência da cultura e da língua portuguesa. Fala-se o galego, dialeto bastante parecido com o português. Isso facilitou ao Padre Manuel falar corretamente o português sem sotaque espanhol, também por ter passado longos anos em Portugal e no Brasil.

Eclesiasticamente a Galícia está dividida em diversas dioceses. A sede Metropolitana é Santiago de Compostela, que tem como sedes sufragâneas: Ludo, Mondoñedo, Oviedo e Túi -Vigo. Santiago, que guarda a tumba do apóstolo São Tiago Maior, foi, por muitos séculos, o lugar das famosas peregrinações de fiéis, que de toda a Europa acorriam àquele Santuário. A diocese do Servo de Deus era Tuy. É muito antiga. Do século VI. Tem somente 1.721 km², com uma população católica estimada em torno de 500 mil habitantes. Divide-se em 275 paróquias. Conta com 215 padres diocesanos e cerca de 80 padres religiosos. Em 1959 foi acrescentada a denominação Túi-Vigo, por ser esta última cidade de maior importância. Tuy foi corrigido para Túi. Está situada junto ao rio Minho. Pertenceu antigamente a Província eclesiástica de Braga (Portugal). No tempo do Padre Manuel, era Bispo de Cleide as tica de Braga Portugal no tempo do Padre Manuel era Bispo de Túi, Dom Valeriano Menendez Conde, do qual recebeu todas as ordens até o presbiterato, a nomeação de coadjutor e a excardinação. Tinha sido também por ele crismado. O pároco de São José de Ribarteme era o Padre Manuel Rosendo Perez, que batizou o futuro Servo de Deus. Os lugares de seu cenário na pátria eram todos próximos. Distavam poucos quilômetros uns dos outros. Foram São José de Ribarteme, Setados, Las Nieves ou As neves.

Fonte: Livro Servos de Deus - Pe. Arlindo Rubert

 

 

 

 

 

Situado no seu ambiente pátrio, compreende-se melhor o itinerário do Servo de Deus. O lugar onde nasceu e a família de onde saiu tem especial importância, pois ambos deixam traços quase indeléveis. Por isso, procurar-se-á descrever o lugar de seu nascimento e o que se pôde colher sobre sua família.

 Terra natal: O Padre Manuel nasceu em São José de Ribarteme, Puenteareas, província de Pontevedra (Galícia), Espanha. O lugar é pequeno. Os moradores dedicavam-se à agricultura, principalmente das vinhas. Eram geralmente pobres. Pouco tiravam da terra cansada. Habitavam em vestustas casas de pedra, herdadas dos antepassados. Não havia indústrias raro comércio. Viam-se poucos animais domésticos e raras árvores frutíferas. Poucas as vias de comunicação. As povoações e vilas da região ficavam próximas umas das outras. Não havia por perto cidades maiores. São José de Ribarteme era paróquia e pertencia à diocese de Túi. Não ficava muito longe a sede episcopal. Sua população sempre foi diminuta.

Família: Foi nesse ambiente simples e agreste que vivia o casal José Gomez Rodrigues e Josefa Gomez Durán, modesto dos agricultores, que casaram a 29 de julho de 1876 perante o pároco Padre Manuel Rosendo Pérez, sendo ele filho de Antônio e Jesusa Gomez Rodrigues, com 24 anos de idade; ela era filha de Calixto Gonzalez e Maria Durán, com 23 anos de idade. Serviram de testemunhas João Durán e João Gomez.

A 29 de maio de 1877 tiveram alegria do primeiro filho, nascido a meia-noite, e lhe deram o nome de Manuel, batizado no dia seguinte na igreja matriz de São José de Ribarteme pelo pároco Padre Manuel Rosendo Pérez. Foram padrinhos José Carbalho e Maria Gonzalez. Segundo depoimento do pároco, a família do Servo de Deus “tem sido sempre respeitada por suas virtudes cívicas, morais e religiosas”. O casal teve cinco filhos: Manuel, Pastora, Cândida, Avelino e José.

A mãe do Padre Manuel veio a falecer a 25 de março de 1917. O pai sobreviveu ao filho, vindo a falecer a 11 de agosto de 1937. Dos irmãos do padre há poucas notícias. Pastora casou, teve um filho e cedo enviuvou. Existe uma carta do padre Manuel a ela dirigida desde Nonoai, a 13 de agosto de 1918. Ela sobreviveu a todos os irmãos, vindo a falecer a 13 de agosto de 1963, aos 83 anos de idade. Cândida casou com José Puga, o qual, deixou-a na Espanha, esteve com Padre Manuel em Nonoai, provavelmente para trabalhar por algum tempo e conseguir algumas economias para depois voltar à Espanha e ajudar a família. Conforme carta do padre Manuel, a seu cunhado Gil Puga era um bom rapaz. Mas muito descansado. Era a intenção do padre, após dois anos de trabalho e economia, reenviá-lo à sua terra para viver com sua mulher. Ele, porém, deixou as práticas religiosas. Quando faleceu, quiseram levá-lo à igreja para os funerais. Opuseram-se terminantemente algumas pessoas religiosas, alegando que ele nunca frequentava a igreja. Dos outros irmãos só foi possível ter alguma notícia do caçula José, o qual, em 1918, era solteiro e noivo de certa Maria, sendo convidado pelo padre Manuel a vir ao Brasil.

Manuel cresceu no clima pacato e religioso, recebendo boa educação cristã. Frequentou catecismo e a escola primária do torrão natal. Ainda criança, foi crismado na igreja paroquial de Santiago de Ribarteme por Dom João Maria Babero, bispo de Túi, sendo padrinho José Sequeiros y Pilar. Cedo sentiu atração para o sacerdócio.

Fonte: Livro Servos de Deus - Pe. Arlindo Rubert

Estudos eclesiásticos: Manuel, devido à pobreza dos pais, não pode se matricular no seminário diocesano de São Pelayo pois, o bispo proibira nele matricular-se como internos os que não podiam pagar pensão. Mas podiam frequentar as aulas como alunos externos. Manuel só pode frequentar as aulas como aluno externo. Aliás, havia diversos colegas na mesma situação. Não podendo matricular-se no seminário diocesano por falta de meios para pagar a pensão, a 30 de setembro de 1897, por meio de seu amigo João Gonzalez Durán, dirige-se ao bispo, pedindo autorização de matricular-se no seminário da vizinha Diocese de Ourense. Parece certo que o ano acadêmico de 1897 - 1898 passou naquele seminário. Mas já no ano seguinte, 1898 – 1899, consta como aluno externo no 2º ano de teologia no seminário de Túi. Somente no último ano de teologia ficou como a aluno interno durante o ano acadêmico de 1901 – 1902. Os estudos eram apertados. O Seminário Maior tinha 3 anos de filosofia e 5 de teologia. Na filosofia se estudavam as seguintes disciplinas: Física, História Natural, Geometria e Temas Filosóficos. Na teologia: Dogma, Patrologia, Moral, Direito Canônico, Sagrada Escritura, História da Igreja, Arqueologia, Oratória Sagrada e Língua Hebraica. Os futuros sacerdotes podiam receber, dentro do seu tempo, muito boa formação. Bons professores reagiam as diversas catédras. Desta época se encontrava o Padre Dr. João Dominguez, Padre Faustino Antônio Garcia e Padre Cláudio Rodriguez Garcia.  Manuel não tinha uma inteligência peregrina, mas bem suficiente para absorver todo o currículo. Suas notas eram assaz boas. Em Teologia Bíblica eram muito boas. Para os ambientes onde desenvolveu seu ministério tinha fama de sacerdote culto. E também um bom mestre e bom pregador. A prática litúrgica era recebida nas paróquias onde se estabelecia como aluno externo do seminário. Exerceu-se certamente no ensino do catecismo às crianças, o que ele sempre apreciou. Numa palavra, sua formação foi boa para exercer o ministério paroquial.

Fonte: Livro Servos de Deus - Pe. Arlindo Rubert

Recebe as ordens menores e maiores: Conforme o direito vigente antes das reformas litúrgicas preconizadas pelo Concílio Vaticano, para se chegar ao sacerdócio havia sete degraus: tonsura clerical, hostiário, leitor, acólito, exorcista, subdiácono, diácono e sacerdote. As ordens eram recebidas em diferentes etapas. Assim o candidato Manuel Gomez Gonzalez recebeu a tonsura a 21 de março de 1896, na Capela do Passo Episcopal, conferida por Dom Valeriano Mendez Conde, bispo de Túi. Com este passo tornou-se clérigo e encardinou-se na diocese. Hoje, equivalente a tonsura, há a admissão ao estado clerical. Ficou então adido a paróquia de São Salvador de Tebra. A 23 de dezembro de 1899 recebeu as ordens menores na igreja de São Francisco, paróquia da Catedral, a “título de suficiência” pelo mesmo o bispo diocesano Dom Valeriano. A 21 de dezembro de 1901, na Capela do Passo Episcopal, com dispensa apostólica do título, Isto é, do patrimônio então exigido para os que ingressaram no clero diocesano, recebeu o subdiaconato e o diaconato, ficando obrigado celibato clerical e a Liturgia das Horas (breviário).

Finalmente, a 24 de maio de 1902, festa da Santíssima Trindade, na capela do Passo Episcopal, recebeu o presbiterato, conferido por Dom Valeriano Mendez Conde, bispo diocesano, com dispensa do título patrimonial e dos interstícios, quer dizer o intervalo entre uma ordem e outra. Agora era sacerdote para sempre. Seria natural que celebrasse sua primeira missa na Paróquia Natal São José de Ribarteme. Mas parece mais provável que a tenha celebrado na igreja de Padrenda, diocese de Orense. Talvez pela ajuda recebida do pároco no ano que estudou no seminário daquela diocese ou por que tivesse ali parentes chegados. Certamente, não deixou de Celebrar outra missa Festiva na matriz de São José de Ribarteme, assistir dá para os seus pais, irmãos, padrinhos e contemporâneos.

Ministério na Espanha:  O Padre Manuel, após a ordenação, exerceu o ministério, primeiramente, como coadjutor da Paróquia de Santa Eugênia de Setados, cujo para o pároco Padre Manuel Antônio Fernandez, em 10 de novembro de 1903, pede ao bispo que dispense seu coadjutor de assistir ao Sínodo Diocesano e prorrogue suas faculdades, porque ele, o pároco, devia sofrer uma intervenção cirúrgica. Residia na povoação de Las Nieves, organizando a futura paróquia. Com efeito, em 1904, a Igreja de Santa Maria das Neves foi ereta em paróquia, sendo seu primeiro pároco Padre José Lourenço Pereira, o Padre Manoel foi nomeado quadro disjuntor da mesma. Foi seu último campo de apostolado na Espanha sua pátria.

Fonte: Livro Servos de Deus - Pe. Arlindo Rubert

Foi sempre uma constante dos últimos séculos uma especial devoção a Nossa Senhora. Era propagada na família, na catequese, nas igrejas e nas comunidades. O mês de maio era celebrado com carinho em honra da Santíssima Virgem praticamente em todas as paróquias. Os futuros sacerdotes recebiam está devoção na família, no seminário, na igreja paroquial, que eles posteriormente a propagavam e transmitiam a seus fiéis. Como em muitas regiões da cristandade, também na Espanha, Especialmente na Galícia, região onde se encontrava a diocese original do Servo de Deus, o mês de maio estava em grande estima, ocasião em que os fiéis levavam as mais lindas flores ao altar da Virgem Maria e participavam como alegria das devoções que aí se faziam. Eram orações devotas, cânticos, e no fim do mês, a coroação de Nossa Senhora. Temos o testemunho em uma carta, escrita de Santiago de Compostela, a sede metropolitana da Galícia, de 3 de maio de 1893, na qual Consuelo Fuentemayor escreveu a seu irmão Padre Ramon Rodrigues Fuentemayor (+1895), pároco de Caçapava e de Santana da Boa Vista, na qual fala do mês de maio, o mês das flores. Diz que as rosas, que ele plantara, anteciparam nesse ano e delas levou muitas a Virgem Santíssima.

Padre Manuel, seminarista e sacerdote da diocese de Túi, ocupou, na pátria, o cargo de quadro de coadjutor das paróquias de Setado e Las Nieves. Ora, bastante perto está o Santuário de Nossa Senhora da Franqueira, aonde ocorrem os fiéis em peregrinação. Certamente, mais de uma vez o Servo de Deus se dirigiu àquele Santuário para pedir graças por intermédio de Maria. Depois, ao se incardinar na Arquidiocese de Braga, ocupou o cargo de pároco de Nossa Senhora do Extremo, tendo ocasião de continuar sua devoção a Nossa Senhora e incultá-la aos fiéis. Ademais na Arquidiocese de Braga, fica o Santuário do Sameiro, dedicado a Imaculada Conceição de Maria, aonde terá ido com seus paroquianos.

O servo de Deus, uma vez pároco, nunca esqueceu a devoção a Nossa Senhora. Procurou incentivá-la entre os fiéis. Sendo Padroeira da paróquia de Nonoai Nossa Senhora da Luz, o impeliu ainda mais a promover a devoção Mariana. Temos referências no depoimento de testemunhas contemporâneas, que vem colaborar a devoção Mariana do biografado. Zulmira Daronchi Ziani, irmã do Adílio, que conheceu o Padre Manuel, foi sua aluna de aula e de catequese e com ele fez a primeira comunhão, afirma: “O Padre Manuel era devoto especialmente de Nossa Senhora da Luz, devoção que trouxe da Espanha e a introduziu na paróquia”.

Parece que Nossa Senhora teve uma especial predileção pelo padre Manuel, pois o mês de maio, o mês de Maria, lhe marcou a vida. Em maio ele nasceu, em maio foi ordenado sacerdote, em maio foi coroado com a palma do martírio. Após a morte, foi encontrado no bolso da sotaina, o rosário, que ele rezava também durante suas viagens pastorais.

Fonte: Livro Servos de Deus - Pe. Arlindo Rubert

Portugal

Motivos alegados: O Padre Manuel em sua diocese original, exercia o ministério como coadjutor sucessivamente em duas minúsculas paróquias. A diocese de Túi tinha abundância de clero, ao passo que a vizinha Arquidiocese de Braga sofria então de escassez. Saído de uma família pobre e ele mesmo pobre, pensou em melhorar sua situação e ajudar seus familiares que o tinham ajudado com sacrifício nos seus estudos. Um sacerdote jovem, cheio de vida, não se conformava com tão pouco trabalho. Poderia dar mais de si se houvesse espaço. A providência veio-lhe ao encontro. Estando vacante a Paróquia de Nossa Senhora do Extremo em Arcos de Valdevez, na Arquidiocese de Braga, foi convidado a assumir aquela paróquia. Os paroquianos falaram com o arcebispo de Braga para que autorizasse o padre  espanhol para ser seu pároco. Diante da falta de candidatos, o arcebispo mostrou-se favorável. Mas precisava da autorização de seu bispo.

Trâmites legais: Aberto este caminho, o Padre Manuel, expondo os motivos, que levavam a exercer um ministério na Arquidiocese vizinha, em carta de 21 de março de 1905 pedia as demissórias, Isto é, a excardinação, para poder se incardinar em Braga, a fim de poder ser nomeado pároco do Extremo. Houve certa demora na resposta, pois o Padre Manuel, em carta de 10 de abril do mesmo ano, renova o pedido, especificando melhor os motivos que o levavam a exercer o ministério paroquial na Arquidiocese de Braga, aliás o padre José Lourenço Pereira, pároco de Las Nieves, em carta a cúria diocesana de 14 de abril, recomendava o pedido de seu coadjutor.

O bispo de Túi, Dom Valeriano Mendez Conde, a 15 de abril de 1905, mostra-se favorável e manda expedir o decreto de excardinação, que traz a data de 5 de maio de 1905. Mas deu-se um impasse jurídico. O Padre Manuel, já na Espanha, Comunica a cúria de Túi, em carta de 20 de junho de 1905, que o Arcebispo de Braga o tinha admitido como seu súdito, ou seja, lhe dera em incardinação naquela arquidiocese. Mas a cúria de Túi, observa que não basta essa comunicação, pois deve partir do arcebispo. Com alguma demora, o arcebispo primaz do Manuel Baptista da Cunha, a 2 de Maio de 1907, passa atestado de que o Padre Manuel Gomez Gonzalez, desde Maio de 1905, foi recebido definitivamente na sua arquidiocese e logo nomeado pároco de Santa Maria do Extremo. Noutras palavras, foi incardinado, e à Arquidiocese de Braga pertenceu até a morte.

As licenças para permanecer no Brasil, após a autorização dada pelo vigário capitular em sede vacante, foram todas concedidas pelo novo arcebispo Dom Manuel Vieira de Matos.

O Padre Manoel Gomez Gonzalez, incardinado juridicamente na Arquidiocese de Braga, foi logo nomeado para o da Freguesia de Nossa Senhora do Extremo em Arcos, arciprestado de Valdevez, em data de 5 de maio de 1905, a qual se achava vacante por falta de clero. Foi bem recebido pelo povo. Aliás, foi a pedido dos paroquianos que deixou sua Diocese de origem para pastorear a modesta paróquia. Trabalhou com entusiasmo e mereceu a estima de todos, graças a seu gênio manso e prestativo. A primeira provisão foi por um ano. Tendo-se desempenhado bem no ministério paroquial, com informações favoráveis do arcipreste de Arcos, recebeu uma nova profissão a 10 de Maio de 1906, que o autorizava a paroquiar por mais dois anos. Findos os quais, sempre com boa recomendação, foi mantido na Paróquia do Extremo, por sucessivas provisões, até 24 de janeiro de 1911.

Por nova disposição do arcebispo, a 24 de janeiro de 1911, o Padre Manuel foi transferido para paróquia de Santo André e São Miguel de Taias e Barroças, no arciprestado de Monsão, norte da diocese, não longe do seu torrão natal. Em 1910 foi proclamada a república. O governo provisório, anticlerical e maçônico, perseguiu as instituições da Igreja. Enquanto isto sucedia, o Padre Manuel terá certamente desempenhado com satisfação dos fiéis seu pastoreio em Taias e Barroças, pois é 29 de Janeiro de 1913, por nova provisão do vigário geral, o mantinha no cargo. Tornava-se cada dia mais difícil o Ministério do sacerdote em Portugal pelo espírito anticlerical e caráter perseguidor do governo provisório. “A proclamação da república, diz um Historiador, foi acompanhada das maiores violências e ataques ao clero e as casas religiosas: assaltos, insultos e assassínios. A 20 de abril de 1911 foi decretada a Lei da Separação, foram surpresas as faculdades católicas, proibido o ensino religioso nas escolas, introduzida a lei do divórcio, banidos os Jesuítas. Muitos seminários foram fechados e ocupados pelas forças militares. Diversos bispos foram perseguidos e expulsos de suas dioceses, inclusive o Arcebispo de Braga. O anticlerical Magalhães Lima dizia enfático: “Dentro de alguns anos não haverá quem quiser ser padre em Portugal”.

Braga, a diocese de Padre Manuel, estava sem arcebispo por ter sido exilado. O venerando Seminário Conciliar de Braga, fundado pelo bispo Bartolomeu dos Mártires, em funcionamento desde 1572, foi ocupado por um regime de Infantaria. Em toda a arquidiocese havia clima de insegurança e de ameaças dos anticlericais. Não era melhor a situação da Paróquia do Padre Manuel.

Alguns bispos, prevendo a crise futura de padres por não vamos poder formar por falta de Seminários, chegaram a aconselhar que alguns padres e migrassem para outro país, para depois, cessado a perseguição, pudessem voltar para suas dioceses. Provavelmente foi nesse contexto que o Padre Manuel veio ao Brasil. Aqui chegado, no requerimento a Cúria do Rio de Janeiro, declara: “O Presbítero o Manuel Gomez González, tendo sido obrigado a abandonar a sua Freguesia de Taias e Barroças, em Portugal, devido à perseguição religiosa, acha-se nesta Capital refugiado”.

A certa altura, o Padre Manuel Envia um requerimento ao Vigário Capitular, em sede vacante, pedindo autorização de ir temporariamente ao Brasil. O motivo nos é desconhecido. Mas na resposta da autoridade de Hosana se diz “pedindo licença para se ausentar para os Estados Unidos do Brasil, onde precisa ir tratar de seus negócios”. No caso, a palavra “negócio” significa assuntos de seu interesse. O Vigário Capitular lhe dá autorização, mas somente por seis meses. A data do documento é de 14 de agosto de 1913. Não se sabe quando embarcou e nem em que navio. Provavelmente nos inícios de outubro. Em todo caso, consta que no dia 24 deste mês já se achava no Rio de Janeiro. Sua intenção era ir a Pouso Alegre, Minas Gerais, onde teria um ponto de referência pela presença de algum amigo ou de algum colega. Mas os desígnios de Deus eram outros.

O Padre Manuel, a 24 de outubro de 1913, no requerimento, dirigiu-se a autoridade diocesana para que lhe fosse concedido, por quatro meses, o uso de ordens no arcebispado. Com data do mesmo dia teve a seguinte resposta: “Concedo licença para celebrar durante 30 dias improrrogáveis”. Assinado: Sebastião, bispo auxiliar. Passados 30 dias, com novo requerimento, se dirigiu ao Cardeal-Arcebispo, pedindo autorização para continuar o uso das faculdades. Com data de 24 de novembro de 1913 recebeu a seguinte resposta: “O Reverendo Suplicante está bem informado que as normas administrativas desta Arquidiocese não permitem a prorrogação de suas faculdades. Sinto muito constrangimento e pena em repetir está negativa. Rio 24. 11.1913. Sebastião. B.A. “Podemos nós imaginar o desapontamento do padre estrangeiro, agora sem uso de ordens, sozinho, sem recursos.

Dom Sebastião Leme, de coração bondoso, expôs o caso ou Cardeal Arcebispo Dom Joaquim de Arcoverde Cavalcanti, o qual, compadecido do padre português, o recomendou a seu amigo do Miguel de Lima Valverde, primeiro Bispo de Santa Maria, que já tinha alguns padres portugueses na diocese, que deixaram Portugal, acossados pela perseguição. Com satisfação recebeu o Padre Manuel na sua diocese apenas instalada, necessitada de clero. E o Padre Manuel, que viera provisoriamente o Brasil, deixou-se ficar longo tempo com licença legitimamente renovada a cada ano. Tornou-se, de certo modo, propriedade da diocese, pois nela trabalhou com muito suores por mais de 10 anos e nela deixou seus próprios ossos. E não há nada maior que dar a vida pelas suas ovelhas, conforme assevera o supremo pastor das almas, Cristo Jesus.

 

 

Brasil

CONTEXTO HISTÓRICO

Convém verificar qual foi o contexto histórico e o cenário em que o servo de Deus Houve de exercer seu ministério no Brasil, para situar melhor seu trabalho e ter uma visão mais completa de quanto o Brow ao longo de seu sofrido itinerário. Interessa especificamente o Estado do Rio Grande do Sul, segunda pátria do Padre Manuel. Em 1922, cenário da Independência, foi eleito o presidente do Brasil Dr. Arthur Bernardes, que não foi bem aceito por alguns partidos. Mais complicada tornou-se a situação do Rio Grande do Sul, dividido entre o partido chimango e maragato. Em 1923 foi eleito presidente do Estado Augusto Borges de Medeiros, chefe do partido chimango. Houve contestação por falta de lisura na eleição. O partido contrário, o maragato, capitaneado por seu candidato Assis Brasil, não reconheceu o eleito e partiu-se para o movimento revolucionário, que se estendeu especialmente ao Norte do Estado, onde labutava vá em fadigoso ministério o nosso biografado. Formara-se logo focos revolucionários nos principais municípios da região. Famoso tornou-se o chefe dos chimangos Firmino de Paula, homem violento e feroz, que avançou sobre Passo Fundo, cidade assediada pelos maragatos Leonel de Rocha e Mena Barreto. Em Palmeira das Missões foi destacado como chefe chimango o Coronel Valzumiro Dutra, encarregado de defender a vila e a região contra as escaramuças dos maragatos. E a revolução e se alastrou pelo sertão do Alto Uruguai, levando o medo e intranquilidade às famílias dos campeiros e agricultores.

Em toda parte houve muitas mortes e até mesmo chacinas, como a do Boi preto, município de Palmeira, onde, por ordem de Firmino de Paula, foram assassinados mais de 200 pessoas. Até em Nonoai chegou a onda revolucionária. Houve torpes vinganças, pois cada partido disputava a hegemonia sobre o norte do Estado. Por 10 meses se prolongou a malfadada convulsão política com muitos crimes e arbitrariedades.

Finalmente, chegou o armistício entre as partes, assinado a 7 de novembro de 1923. Foi neste ambiente difícil e perigoso que o Padre Manuel exerceu seu ministério nas paróquias de Nonoai e Palmeira das Missões, sendo espreitado por Juquinha Moura e Valzumiro Dutra e seus comparsas. Embora fosse firmada a paz, o instinto belicoso de muitos continuou ainda por algum tempo na região norte do Estado. Todavia, não há desculpa do assassinato perpetrado após o armistício, pois o padre, em todo o seu tempo, estava facilmente às mãos dos revolucionários. Foi em maio de 1924 que perpetraram o horrendo holocausto de duas inocentes vítimas de seu ódio. Por quais ideologias se orientavam os próceres que governavam o estado e as Vilas do Sertão? Quase todos eram positivistas, anticlericais, adeptos da maçonaria. Daí se compreende como dificultavam a ação da Igreja. Não escondiam seu desafeto aos sacerdotes bons e zelosos por temerem, no fundo, a diminuição da própria influência. Mostravam-se vingativos, sempre prontos a eliminar os que lhe pareciam contrários.

Situação econômica e religiosa do povo do Alto Uruguai: A região norte do Rio Grande do Sul, conhecida como Sertão do alto Uruguai, desde muito tempo era escassamente povoada por índios e caboclos, seguindo-se, aos poucos, a migração interna de ítalo-brasileiros e teuto-brasileiros e também de alguns grupos de origem polonesa. Formaram pequenas comunidades e deram origem a diversas povoações. O abandono dos primeiros moradores era deprimente. O nível cultural do povo era baixo. Não havia praticamente escolas. As distâncias eram grandes, maus caminhos e meios de transportes usados eram o lombo do burro ou do cavalo. O comércio era rudimentar. Ás vezes vinham a faltar querosene e sal. Volta e meia aparecia o “viajante”, que fornecesse as mercadorias mais vendidas na região. Às vezes também as menos vendidas. A situação religiosa dos habitantes era variada. Os luso-brasileiros, que tinham por primeiro penetrado no impérvio sertão, pouco guardaram de sua tradição católica. Abandonados a si mesmos, sem instrução religiosa, muitas superstições grassavam entre eles. Batizavam geralmente os filhos em casa, aguardando a rara visita do vigário. Quando muito cansavam pelo civil ou se amancebavam. Muito raros eram os casamentos religiosos. Com o aparecimento de outras religiões, dividiram-se famílias e comunidades. Muitos, devido ao ambiente em que se moviam, inclusive o revolucionário, criar um hábitos não condizentes com a dignidade humana, sendo frequentes os banditismos e assassinatos de pessoas.

Bem melhor era a situação entre Imigrantes de origem estrangeira, já com boa tradição religiosa da família e dos lugares de onde vieram. Os de origem italiana e polonesa, todos os católicos, conheciam as verdades básicas e sua religião, se reuniam para oração e para a rara visita do padre. Os de origem alemã, parte eram católicos e outra parte protestante ou luteranos. Foram construídas as igrejas e organizado o culto. Os migrantes se dedicavam à agricultura e em pouco tempo melhoraram sua situação econômica. No tempo do Padre Manuel só haviam duas paróquias, a de Palmeira das Missões e de Nonoai. Mas as distâncias eram grandes e havia muitos claros sem habitações. A densidade demográfica a mínima. O povo era quase sempre pobre, com as devidas exceções. Em resumo, tanto no aspecto social e econômico, como no aspecto cultural e religioso, havia muitas lacunas a preencher. Com o andar dos tempos, muitas coisas mudaram para melhor. Mas no tempo do Padre Manuel o ambiente era precário. Foi Neste contexto histórico que houve de exercer seu ministério pastoral. E isto já basta para mostrar a fibra do futuro mártir.

 

 

 

Cenário geográfico: O Servo de Deus, no Brasil, atuou em três lugares que merecem uma descrição resumida, para compreender quanto foi dele exigido no cumprimento de seus deveres sacerdotais. Acrescentar-se -á algo do histórico dos respectivos lugares. Todos os 10 anos de Brasil foram localizados na Diocese de Santa Maria, Rio Grande do Sul ,que foi criada a 15 de agosto de 1910 pelo Papa São Pio X,  toda desmembrada da do então bispado do Rio Grande do Sul, ocasião em que Porto Alegre foi elevada arcebispado, e criadas mais Diocese de Pelotas e Uruguaiana. A diocese de Santa Maria tornou-se, então a maior diocese do Rio Grande do Sul, com 15 vastos municípios e 20 paróquias e cinco curados.

No tempo do Padre Manuel, foram bispos de Santa Maria Dom Miguel de Lima Valverde e Dom Eusébio da Rocha, dos quais dar-se-á no resumo biográfico. Dom Miguel nasceu a 20 de setembro de 1872 em Santo Amaro, na Bahia, foi ordenado sacerdote a 30 de março de 1895. Ocupou diversos cargos, ultimamente Vigário Geral da arquidiocese de Salvador. A 6 de fevereiro de 1911 foi eleito o primeiro Bispo de Santa Maria, sendo sagrado a 29 de Outubro do ano seguinte na Bahia. Tomou posse a 7 de janeiro de 1912. Em 10 anos de episcopado, visitou, na média, três vezes a diocese, criou 14 paróquias e três curatos, fundou o Seminário Diocesano e ordenou quatro novos sacerdotes diocesanos. O zeloso anístite, promovido Arcebispo de Olinda e Recife, deixou a diocese a 28 de maio de 1922, tomando posse de seu novo campo de apostolado a 23 de Julho seguinte. Faleceu no cargo a 7 de maio de 1951.

Foi Dom Miguel quem recebeu na diocese o nosso Servo de Deus e o nomeou coadjutor e pároco de Soledade, pároco de Nonoai e administrador da paróquia de Palmeira. Existe correspondência epistolar.

O segundo Bispo Diocesano de Santa Maria foi Dom Ático Eusébio da Rocha, nascido em Inhambupe, na Bahia, a 6 de novembro de 1882. Foi ordenado presbítero a 27 de agosto de 1905. Foi pároco de diversas freguesias. A 27 de setembro de 1922, nomeado Bispo de Santa Maria, recebe a ordenação Episcopal a 15 de abril de 1923. Tomou posse a 27 de maio de 1923. Visitou toda a diocese por duas vezes, pregava com boa aceitação. Atendia pessoalmente numerosas confissões, concluiu inaugurou o Seminário Diocesano São José. Ordenou 13 sacerdotes, criou nove paróquias e um Curato. Transferido para a nova diocese de Cafelândia, São Paulo, por decreto de 17 de Dezembro de 1928, depois foi promovido Arcebispo de Curitiba, da qual tomou posse a 7 de março de 1936, vindo a falecer no cargo a 11 de abril de 1950. Foi Dom Ático que encarregou Padre Manuel de administrar interinamente também a paróquia de Palmeira das Missões e pediu que visitasse os colonos de origem alemã migrados há pouco para Três Passos, ocasião em que foi martirizado a 21 de maio de 1924 e Feijão Miúdo. O boletim da diocese registrou sua morte. Existe correspondência epistolar entre o Padre Manuel e Dom Ático.

No Planalto de Soledade: Soledade, amplo município do planalto médio da encosta da Serra Geral, um tanto acidentado, de clima bastante frio, não gozava de boa fama devido a valentia de grande parte de seus habitantes, sendo frequentes os homicídios, as rixas e inimizades. O nível cultural era abaixo. A instrução religiosa quase nula. A política funcionava e a maçonaria também. O ambiente era adverso a um trabalho de moralização e espiritualidade religiosa. A principal riqueza era a criação de gado. Pouco agricultura. Muitos pobres se espalhavam em todo o seu território, a começar pela cidade até os rincões mais afastados. O município foi criado em 29 de março de 1875. Pouco desenvolvida. A politicagem e as intrigas retardavam no seu progresso. Naturalmente, não faltavam também bons elementos na pequena vila. Igualmente, na parte religiosa, havia grupos de fiéis que se mostravam dos dóceis aos ensinamentos da Igreja e procuravam pautar sua vida com as exigências da moral católica. Não faltavam abusos, mas havia também seriedade na família e na comunidade.

No aspecto religioso, existe longa tradição. Cedo em Soledade havia instâncias de criação de gado e principalmente de mulas, que eram levadas para as feiras em São Paulo. Quase sempre algum padre acompanhava os tropeiros exercia algum ministério nos lugares onde não havia padre. As paradas das tropas se prolongavam, às vezes no tempo invernal até muitos meses. O primeiro sacerdote conhecido que se demorou muitos meses em Soledade, nos anos de 1837 e 1838, foi o padre Fidelis José de Morais, paulista, antigo coadjutor de Rio Pardo, que foi o primeiro a fazer os assentos paroquiais nos livros de Soledade, sendo rubricado do de batismo pelo pároco de Cruz Alta, padre Francisco Gonçalves Pacheco, a 16 de abril de 1837, ano em que foi construída a Capela de Nossa Senhora da Soledade, sendo uma espécie de capelania. Nela exerceram o ministério o padre Luís Antônio de Alvarenga, capelão da Divisão de São Paulo, em seguida o padre Manuel Antônio de Azevedo e o padre Antônio Coelho Leal. Elevada a capela curada em 1845. Neste período, até a criação da paróquia, exerceram o ministério como curas o padre Antônio de Almeida Leite Penteado, padre Francisco da Mãe de Deus Cunha e padre Felipe Isnard.

A paróquia de Soledade foi criada por Lei Provincial de 14 de janeiro de 1857, pelo então direito do padroado. Dois anos mais tarde, foi canonicamente confirmada pelo Vigário Capitular, padre Juliano de Faria Lobato, que a 23 de março de 1859 nomeou primeiro pároco e padre Manuel Lázaro Freire, paulista. Sucedeu-lhe em meados de 1861 o padre Manuel José da Conceição Braga, substituído, por sua vez, em 1864 pelo padre Tomáz de Souza Ramos, que houve da atuar perseguições, foi caluniado é processado, mais obteve ganho de causa. A 20 de abril de 1866, Soledade foi erigida em comarca eclesiástica. O padre Ramos retirou-se em 1869 em viagem para Portugal, sua pátria. A paróquia ficou vacante até 1873 com a chegada do padre José Luís do Vale. Mas em 1875 volta o padre Tomaz de Souza Ramos, que em 1881 permutou a freguesia com o pároco de Passo Fundo padre José Cirilo da Cunha, que em 1887 se ausentou, por motivos de saúde, para Portugal, sua pátria. No mesmo ano, toma posse de Soledade padre Caetano Ferraro, calabrês, que relaxou seus deveres e deixou a paróquia em estado lastimável. Após a paroquiação dos padres Pedro Wagner, palotino e Manuel Canel, secular, ambos sacerdote zelosos, com a criação do Diocese de Santa Maria, Soledade passou a lhe pertencer.

Dom Miguel de Lima Valverde, primeiro Bispo de Santa Maria, a 18 de novembro de 1912, no 16 pároco da freguesia vacante o padre João Antônio de Faria, sacerdote instruído e Zeloso, vindo da arquidiocese de Braga em Portugal. Com muita satisfação, no ano seguinte, recebeu como coadjutor o Padre Manuel, pertencente a mesma arquidiocese. Foi uma boa aquisição. Dividiram a trabalho da extensa paróquia, atendida com zelo apostólico por ambos. Pela pregação, pela catequese e pelas visitas o povo ia sendo instruído nas verdades da fé. O padre Faria houve de viajar às pressas a Portugal por ter enfermado gravemente seu velho pai. Então o Bispo houve por bem nomear o Padre Manuel Gomez Gonzalez, por provisão de 23 de janeiro a 1914, pároco de Soledade. Foi uma pesada carga para ele atender sozinha difícil paróquia. Mas aceitou o cargo e com mais empenho atender o espiritualmente a vila e o interior do município. Os fiéis gostavam muito do Padre Manuel por sua índole mansa, enquanto Padre Faria era mais enérgico. Quando ele voltou de Portugal, por provisão de 15 de dezembro, foi reconduzido para Soledade. Logo pediu o Bispo que deixasse o Padre Manuel como coadjutor. O bispo concordou. Assim pôde ele continuar o ministério em Soledade até sua nomeação como pároco de Nonoai.

É interessante observar que o Padre Faria, embora estimasse seu auxiliar, contudo, numa carta ao bispo, reconhecendo ser o Padre Manuel bom sacerdote, e parecia estar destituído daquela energia que reclamavam a paróquia da Soledade.

Diz que, na vila, chegaram a se formar dois partidos, são a favor dele, outro favor do pároco, embora diga expressamente que foi sem culpa. No relatório Paroquial de 1915, enviado à Cúria diocesana, assim se expressa: “O Padre Manuel Gomez Gonzalez prestou como coadjutor bons serviços: humilde, obediente e pronto para serviço”. Quando o Padre Manuel deixou definitivamente Soledade, o padre Faria deixou anotado no livro do Tombo: “O Padre Manuel Gomez Gonzalez, que deixou de ser coadjutor desta Paróquia, prestou bom serviços no tempo que aqui esteve”.

Nonoai: Situado no vale do Rio Uruguai, norte do Estado, foi o principal teatro da atividade Pastoral do nosso Servo de Deus. Convém conhecer um pouco da história do lugar, principalmente da Paróquia. Ambos município e paróquia, tiveram dias bons e dias maus. A história civil de Nonoai pode se dividir em duas etapas. A primeira vai da fundação por volta de 1838 até a revolução a Revolução Federalista de 1893. Foi tempo de crescimento e prosperidade. Após a revolução, tempo de decadência e de ressurgimento. Foi decisiva na fundação de Nonoai o estabelecimento da Colônia dos Índios por parte do governo e abertura da estrada de Passo Fundo ao porto de Goio-En e daí até os campos de Palmas e Guarapuava, no Paraná, encurtando de muito o caminho dos tropeiros de mula entre São Paulo e o Rio Grande do Sul.

Considera-se como fundador o Comendador Cipriano da Rocha Loires, que se ocupava, por encargo do governo, dos Índios Kaingang ou Coroados de Guarapuava e de Palmas, conhecendo-lhes a língua. A pedido de comerciantes e tropeiros de mula, explorou um caminho mais curto para ligar os campos do Rio Grande do Sul, onde se criavam as mulas, com São Paulo, onde eram comerciadas. Partindo de Xanxerê, atravessando a região de Chapecó, chegou ao passo de Goio-En, daí subindo as matas do norte, dobrou para Passo Fundo, chegou ao aldeamento dos índios Kaingangs, cujo cacique Nonoai, de índole bondosa recebeu a comissão amigavelmente. Por proposta de Rocha Loires, o cacique aceitou de retirar os índios mais para a esquerda, onde havia abundantes matas e aguadas, deixando o pequeno descampado para a abertura da estrada e pouso dos tropeiros, com a condição de não molestarem seu povo. Aceitas as condições, a estrada foi aberta e formou-se logo uma pequena povoação, que foi denominada Nonoai, em homenagem a um bom cacique Kaingang. O local começou a prosperar. Foi estabelecida uma casa de pouso para os viageiros, abriu-se pequeno comércio e formou-se o povoado, que nos anos posteriores prosperou a olhos vistos. Foi a primeira vila surgida no Alto Uruguai. Em 1847 foi estabelecida uma Coletoria para cobrar os impostos das mulas a caminho de São Paulo. Nonoai foi criado distrito de Palmeira das Missões a 3 de abril de 1875. Em 1890 chegou a ser elevado a município, e por diversas dificuldades, não se efetivou. Com a Revolução Federalista 1893 caiu em grande decadência.

Quanto aos índios, desde 1846 ficou encarregado do aldeamento João Cipriano da Rocha Loires, que não tardou a ser destituído, sendo encarregado pelo governo de sua direção José de Oliveira (1852 – 1870), louvado pela sua benéfica gestão em favor dos índios.

Catequização dos índios: O governo se interessou na catequização dos índios de Nonoai, não tanto pelo zelo da religião, mas para mente-los mansos como então se dizia. A igreja sempre se empenhara na sua evangelização. Os Kaingang de Nonoai eram praticamente todos pagãos, isto é, seguiam a religião de seus ancestrais, com exceção de uns poucos que tinham sido catequizados e batizados pelo insigne missionário diocesano Padre Francisco das Chagas Lima em Guarapuava. Num primeiro tempo, ficou encarregado da catequização dos índios de Nonoai o Padre Antônio Leite de Almeida Penteado, que se aventurou. Em 1845, a iniciar sua catequização, chegando até Nonoai. Mas encontrou tantos obstáculos que o obrigou, depois de alguns meses, a largar o empreendimento. Em 1842, os Jesuítas, expulsos da Argentina pelo ditador Rosas, foram bem acolhidos em Porto Alegre. O presidente da província, querendo aproveitar estes elementos hábeis para as missões, em 1849 os encarregou de catequizarem os índios Kaingang e Guarani do toldo de Guarita e do toldo de Nonoai.

Aqui ainda vivia o cacique Nonoai, com 120 anos, que parece ter falecido em 1853. Para missão de Nonoai foram destacados os jesuítas espanhóis, Padre Júlio Solanellas e Padre Santiago Villarubia. Com muito entusiasmo iniciaram a catequese dos índios, com resultados relativamente bons. Notaram que os índios eram dotados de inteligência. Tem-se há prova nos dois índios mais prendados que, em 1861, foram entregues ao Barão de Triunfo para fazê-los estudar. Recebeu-os o Bispo Dom Sebastião Dias Laranjeira, que os mandou instruir e batizar e fazê-los estudar no Seminário Episcopal. Um foi chamado o Pedro Nonoai, em honra do velho Cacique Kaingang; o outro se chamou o Ricardo Necafim, em homenagem ao Cacique do Rio da Várzea. Em 1863, um grupo de índios, com o pai de Pedro Nonoai, foram a Porto Alegre. Maravilharam-se com os dois jovens índios, que sabiam rezar e ler corretamente. Um deles veio a falecer pouco depois. Somente em 1881 tiveram os índios de Nonoai sua escola, dirigida pelo professor Augusto Frederico Fetter.

A missão seguia seu passo, começando a dar bom resultado. Infelizmente, já em 1850, os jornais anticlericais de Porto Alegre iniciaram uma campanha de difamação dos Jesuítas da missão. Os Missionários, têm ajuda do governo, reduzidos a miséria, não tiveram outra saída que desistir da missão em 1852, truncando tão benéfico apostolado. O governo do Estado, reconhecendo o seu erro, em 1854 tornou a recorrer aos jesuítas, para que retomassem a missão do Guarita e de Nonoai. Alguns jesuítas estavam dispostos a voltar, mas o superior negou o pedido do governo. Novamente o governo provincial, em 1858, tornou a pedir a jesuítas que resumisse a missão interrompida. Recusaram-se, porém, os superiores da Ordem, “não querendo sacrificar inutilmente os seus súditos numa empresa que tiveram de abandonar quando oferecia mais esperança de resultado”.

A assistência religiosa aos moradores e Nonoai foi sempre precária e insuficiente. Estávamos no tempo do padroado Régio, quando o Imperador gozava de largas prerrogativas no tocante a criação de bispados paróquias e capelas curadas. Delegara o governo provincial a representa-lo. A Lei provincial Nº 436 de 3 dezembro de 1859, criou a Capela Curada de Nossa Senhora da Luz de Nonoai, que teria capelão com côngrua como a dos como é dos párocos, devia atender todos os moradores do distrito e dirigir uma escola de primeiras letras. Não havendo condições e estando vacante a diocese do Rio Grande do Sul, Nonoai foi atendida esporadicamente pelo pároco de Passo Fundo, primeiramente pelo padre Manuel Carlos Aires de Carvalho até 1862; depois pelo padre Antônio da Rocha Pinto. Felizmente, a 8 de Março 1870, o Bispo Dom Sebastião de Laranjeira nomeia para capelão de Nonoai o padre José Stuter S.J., ex-paróco de Santa Cruz, para catequese dos índios de atendimento da população.  V eio acompanhado do irmão leigo João Egglof e se estabeleceu na casa construída para o capelão. Como não havia igreja, nos primeiro tempos funcionou na residência do capelão até ser concluída a modesta capela de São João Batista. O Padre Stuter, no tempo em q         ue residiu em Nonoai, atendeu com zelo os índios e os moradores. Mas por dificuldades de manutenção e manejos dos anticlericais, retirou-se em fins de 1872. A desventurada povoação ficou novamente sem assistência religiosa, a não ser alguma rara visita do pároco da Passo Fundo.

Finalmente, o bispo diocesano reconheceu, ou melhor, confirmou canonicamente o curato de Nossa Senhora da Luz de Nonoai, a 21 de agosto de 1875, nomeado cura o Padre Nicolau Guida, sacerdote italiano da diocese de Cassano, que só permaneceu três meses por ter sido nomeado pároco de Santana da Boa Vista. Por lei provincial nº 925, de 3 de abril de 1875, pelo direito do padroado, foi criada a Paróquia de Nossa Senhora da Luz de Nonoai, que teve a confirmação canônica pelo bispo Dom Sebastião Dias Laranjeira, a 23 de maio de 1876, encarregando o padre José Cirilo da Cunha de atendê-la. A diocese do Rio Grande do Sul lutava com falta de padres. Outro pároco de Passo Fundo, o Padre Tomás de Souza Ramos, atendeu Nonoai, o qual concluiu inaugurou a Igreja Matriz. Atendeu até maio de 1890. Finalmente, Nonoai teve pároco residente, que foi o Padre João Peres Castanho. Mas ficou somente um mês. A paróquia foi novamente atendida pelo pároco de Passo Fundo Padre José Ferreira Guedes, que pouco a visitou por motivos de saúde e idade.

A revolução Federalista liquidou com Nonoai. Mesmo assim, em janeiro de 1893, chegou o segundo pároco residente de Nonoai, Padre Miguel Zito, da diocese de Acerenza, na Itália, já pároco de diversas freguesias, nomeado para Nonoai a 31 de dezembro por Dom Cláudio Ponce de Leão. Encontrou um ambiente desolado e se manteve por um ano. Em princípio do século XX, a paróquia vacante de Nonoai foi atendida pelos párocos de Passo Fundo, Padre Pedro Wimer e Padre Valentim Rumpel, palotinos, de nacionalidade alemã, mas conheciam bem a língua do país.

Em 1908 a paróquia, por determinação do Bispo Diocesano, passou a ser atendida pelo parto de Palmeira das Missões, primeiramente pelo Padre Frederico Blass e Padre Germano Schoer, palotinos alemães. Em 1912 e residiu em Nonoai o pároco o Padre Jacó Hoelzer, Igualmente palotino e alemão. Demorou-se cerca de um ano. A 9 de maio de 1915 tomou posse como pároco de Palmeira o padre Orácio Giraldi, sacerdote circular italiano, que visitou Nonoai, onde permaneceu todo mês de setembro de 1915 e fundou o Apostolado da Oração.

Dentro deste contexto histórico, social e religioso se desenvolveu Ministério apostólico de Servo de Deus Manuel Gomez Gonzalez.

O Padre Manuel exerceu seu ministério nas paróquias de Nonoai e Palmeira das Missões,  sendo espreitado por Juquinha Moura e Valzumiro Dutra e seus comparsas. Embora fosse firmada a paz, o instinto belicoso de muitos continuou ainda por algum tempo na região norte do Estado. só haviam duas paróquias, a de Palmeira das Missões e de Nonoai. Mas as distâncias eram grandes e havia muitos claros sem habitações. A densidade demográfica a mínima. O povo era quase sempre pobre, com as devidas exceções. Em resumo, tanto no aspecto social e econômico, como no aspecto cultural e religioso, havia muitas lacunas a preencher. Com o andar dos tempos, muitas coisas mudaram para melhor. Mas no tempo do Padre Manuel o ambiente era precário. Foi Neste contexto histórico que houve de exercer seu ministério pastoral.

No exercício de seu ministério em Nonoai se cruzam os caminhos de Pe. Manuel e de Adílio Daronch, outro jovem mártir. Adílio nasceu no dia 25 de outubro de 1908, em Dona Francisca, Município de Cachoeira do Sul – RS. Seus pais, Pedro Daronch e Judite Segabinazzi, tinham 08 filhos: Ermínia, Abílio, Adílio, Zulmira, Anita, Carmelinda, João e Vilma. Em 1911, a família transferiu-se para Passo Fundo e, em 1913, para Nonoai. Fazia parte do grupo de adolescentes que acompanhavam o Pe. Manuel em visita às comunidades do interior, inclusive a dos índios Kaingang. Além de servir o Altar, Adílio e outros colegas, eram alunos da escola pelo padre fundada e dos quais era também professor.